Enquanto isso uruaçuEnquanto isso uruaçuEnquanto isso uruaçu
  • Home
  • Brasil
    BrasilMostre mais
    veja-os-numeros-da-mega-sena-sorteados-neste-sabado-(4)
    Veja os números da mega-sena sorteados neste sábado (4)
    4 de julho de 2026
    de-penalti,-franca-vence-retranca-do-paraguai-e-se-classifica-na-copa
    De pênalti, França vence retranca do Paraguai e se classifica na Copa
    4 de julho de 2026
    ancelotti-da-pista-de-martinelli-para-vaga-de-paqueta-contra-noruega
    Ancelotti dá pista de Martinelli para vaga de Paquetá contra Noruega
    4 de julho de 2026
    bruno-guimaraes-projeta-duelo-com-odegaard-e-alerta-sobre-bola-parada
    Bruno Guimarães projeta duelo com Odegaard e alerta sobre bola parada
    4 de julho de 2026
    zona-norte-e-regiao-do-rio-com-maiores-temperaturas,-aponta-estudo
    Zona norte é região do Rio com maiores temperaturas, aponta estudo
    4 de julho de 2026
  • Internacionais
    InternacionaisMostre mais
    numero-de-mortos-por-terremotos-na-venezuela-sobe-para-2.645
    Número de mortos por terremotos na Venezuela sobe para 2.645
    5 de julho de 2026
    sobe-para-2.595-numero-de-mortos-em-terremotos-na-venezuela
    Sobe para 2.595 número de mortos em terremotos na Venezuela
    4 de julho de 2026
    brasil-rebate-eua-e-diz-que-tarifaco-prejudicaria-empresas-americanas
    Brasil rebate EUA e diz que tarifaço prejudicaria empresas americanas
    4 de julho de 2026
    papa-emerito-bento-xvi-morre-aos-95-anos
    Papa emérito Bento XVI morre aos 95 anos
    4 de julho de 2026
    russia-dispara-misseis-contra-grandes-cidades-da-ucrania
    Rússia dispara mísseis contra grandes cidades da Ucrânia
    4 de julho de 2026
  • Região
    RegiãoMostre mais
    onibus-com-romeiros-tomba-noceara-e-provoca-morte-de-duas-pessoas
    Ônibus com romeiros tomba noCeará e provoca morte de duas pessoas
    5 de julho de 2026
    operacao-no-rio-desarticula-esquema-de-desvio-de-combustivel
    Operação no Rio desarticula esquema de desvio de combustível
    5 de julho de 2026
    mega-sena-sorteia-premio-de-r$-33-milhoes-neste-sabado
    Mega-Sena sorteia prêmio de R$ 33 milhões neste sábado
    4 de julho de 2026
    frente-fria-avanca-pela-regiao-sul-e-sudeste-da-amazonia
    Frente fria avança pela Região Sul e sudeste da Amazônia
    4 de julho de 2026
    mega-sena-acumula-e-premio-principal-vai-para-r$-33-milhoes
    Mega-Sena acumula e prêmio principal vai para R$ 33 milhões
    4 de julho de 2026
  • Esportes
    EsportesMostre mais
    luisa-stefani-avanca-as-oitavas-de-final-nas-duplas-em-wimbledon
    Luisa Stefani avança às oitavas de final nas duplas em Wimbledon
    5 de julho de 2026
    brasil-faz-ultimo-treino-antes-de-encarar-noruega-pelas-oitavas
    Brasil faz último treino antes de encarar Noruega pelas oitavas
    5 de julho de 2026
    argentina-passa-sufoco,-mas-encerra-“conto-de-fadas”-de-cabo-verde
    Argentina passa sufoco, mas encerra “conto de fadas” de Cabo Verde
    5 de julho de 2026
    copa-dos-recordes:-as-novas-marcas-estabelecidas-em-2026
    Copa dos recordes: as novas marcas estabelecidas em 2026
    5 de julho de 2026
    oitavas-de-final-comecam-hoje-com-canada-e-marrocos,-paraguai-e-franca
    Oitavas de final começam hoje com Canadá e Marrocos, Paraguai e França
    5 de julho de 2026
  • Politica
    PoliticaMostre mais
    confira-como-vai-funcionar-esquema-de-seguranca-para-a-posse
    Confira como vai funcionar esquema de segurança para a posse
    5 de julho de 2026
    conheca-a-trajetoria-politica-de-geraldo-alckmin
    Conheça a trajetória política de Geraldo Alckmin
    5 de julho de 2026
    professores-da-uerj-suspendem-greve,-apos-tres-meses-de-paralisacao
    Professores da Uerj suspendem greve, após três meses de paralisação
    4 de julho de 2026
    comissao-da-camara-aprova-pec-que-cria-fundos-para-sul-e-sudeste
    Comissão da Câmara aprova PEC que cria Fundos para Sul e Sudeste
    4 de julho de 2026
    brasil-nao-vai-abandonar-a-mesa,-diz-ministro-sobre-taxacao-dos-eua
    Brasil não vai abandonar a mesa, diz ministro sobre taxação dos EUA
    4 de julho de 2026
  • Economia
    EconomiaMostre mais
    publicacao-propoe-alternativas-para-exploracao-de-terras-raras-no-pais
    Publicação propõe alternativas para exploração de terras raras no país
    5 de julho de 2026
    industria-brasileira-recua-0,2%-em-maio;-primeira-queda-desde-2025
    Indústria brasileira recua 0,2% em maio; primeira queda desde 2025
    5 de julho de 2026
    projecao-de-superavit-comercial-e-elevada-para-us$-90-bilhoes
    Projeção de superávit comercial é elevada para US$ 90 bilhões
    4 de julho de 2026
    exportacoes-aos-eua-crescem-pela-primeira-vez-apos-tarifaco-de-trump
    Exportações aos EUA crescem pela primeira vez após tarifaço de Trump
    4 de julho de 2026
    balanca-comercial-tem-superavit-de-us$-9,8-bilhoes-em-junho
    Balança comercial tem superávit de US$ 9,8 bilhões em junho
    4 de julho de 2026
  • Educação
    EducaçãoMostre mais
    pe-de-meia-paga-quarta-parcela-aos-nascidos-em-julho-e-agosto
    Pé-de-Meia paga quarta parcela aos nascidos em julho e agosto
    5 de julho de 2026
    matriculas-em-creches-avancam-36%-em-quase-uma-decada
    Matrículas em creches avançam 36% em quase uma década
    5 de julho de 2026
    inep-disponibiliza-painel-de-estatisticas-da-educacao-superior
    Inep disponibiliza painel de estatísticas da educação superior
    5 de julho de 2026
    ufrj-inaugura-radio-fm-no-grande-rio
    UFRJ inaugura rádio FM no Grande Rio
    4 de julho de 2026
    enem:-recurso-de-atendimento-especializado-deve-ser-feito-ate-hoje
    Enem: recurso de atendimento especializado deve ser feito até hoje
    4 de julho de 2026
  • Policia
    PoliciaMostre mais
    policia-civil-e-mpf-fazem-operacoes-contra-o-trafico-de-drogas-no-rj
    Polícia Civil e MPF fazem operações contra o tráfico de drogas no RJ
    5 de julho de 2026
    policia-identifica-alunos-que-picharam-frase-nazista-em-escolas-de-mg
    Polícia identifica alunos que picharam frase nazista em escolas de MG
    5 de julho de 2026
    prf-inicia-a-operacao-rodovida-que-vai-fiscalizar-e-coibir-infracoes
    PRF inicia a Operação Rodovida que vai fiscalizar e coibir infrações
    5 de julho de 2026
    futebol:-violencia-domestica-cresce-quando-ha-resultados-inesperados
    Futebol: violência doméstica cresce quando há resultados inesperados
    4 de julho de 2026
    apos-ataque,-pm-do-rj-reforca-policiamento-na-comunidade-bateau-mouche
    Após ataque, PM do RJ reforça policiamento na comunidade Bateau Mouche
    4 de julho de 2026
Buscar
Leitura: Safatle afirma que pensadores não podem ter medo de nomear o fascismo
Compartilhar
Redimensionador de fonteaa
Enquanto isso uruaçuEnquanto isso uruaçu
Redimensionador de fonteaa
  • Brasil
  • Politica
  • Economia
  • Região
  • Saúde
  • Esportes
  • Internacionais
Buscar
  • Home
    • Home 1
    • Default Home 2
    • Default Home 3
    • Default Home 4
    • Default Home 5
  • Categories
    • Esportes
    • Região
    • Economia
    • Internacionais
    • Brasil
    • Politica
    • Saúde
    • Policia
  • Bookmarks
  • More Foxiz
    • Sitemap
Siga-nos
  • Advertise
Enquanto isso Uruaçu © 2026 Todos direitos reservados
Enquanto isso uruaçu > Blog > Politica > Safatle afirma que pensadores não podem ter medo de nomear o fascismo
Politica

Safatle afirma que pensadores não podem ter medo de nomear o fascismo

Ultima atualização: 6 de junho de 2026 09:50
Por Camila Boehm - Reporter da Agencia Brasil
Compartilhar
19 leitura mínima
safatle-afirma-que-pensadores-nao-podem-ter-medo-de-nomear-o-fascismo
Safatle afirma que pensadores não podem ter medo de nomear o fascismo
  • Facebook
  • Twitter
  • Pinterest
  • LinkedIn
  • WhatsApp

Crítico dos pensadores que resistem a classificar movimentos autoritários da extrema direita contemporânea como fascistas, o filósofo Vladimir Safatle defende que é preciso perder o medo de nomear esse fenômeno. E, mais do que isso, considerar que seus apoiadores fazem um cálculo racional:

“É mais ou menos o seguinte: ‘não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu'”, descreve em entrevista exclusiva à Agência Brasil o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Autor de A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, ele participa do debate Novos Fascismos Globais, no próximo sábado (6), a partir das 11h40, dentro da programação d’A Feira do Livro, em São Paulo. 

Segundo Safatle, formas de violência típicas de estruturas fascistas foram naturalizadas em democracias liberais, quando acontecem em determinados territórios e são cometidas contra certos grupos. Ele defende ainda que haja reflexão no ambiente acadêmico em relação à evolução do conceito de fascismo, em vez de reduzi-lo ao contexto do autoritarismo na Itália, na década de 1930.

“Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo”, disse Safatle.

Confira os principais trechos da entrevista.

Agência Brasil: Gostaria que você falasse sobre a evolução e aplicação do conceito de fascismo.

Vladimir Safatle: Eu sou daqueles que acham que o uso do termo fascismo é adequado para dar conta das formas de autoritarismo contemporâneo. Na verdade, a gente teve um uso muito restrito que tentava circunscrever o fascismo a um fenômeno histórico preciso dos anos 1930 que não se repetiria mais.

Eu acho que isso é fruto de uma decisão política, antes de qualquer outra coisa, que é de tentar impedir que se perceba como as nossas democracias liberais sempre naturalizaram, em certos territórios, para certos grupos, em certos contextos, práticas e formas de violência que são tipicamente utilizadas dentro de estruturas fascistas.

Por isso que eu sou daqueles que acham que, melhor do que falar de uma democracia liberal como uma forma natural da nossa estrutura política, seria mais interessante falar de fascismos restritos, que, em situação de crise, se generalizam, como o que está acontecendo agora. Restrito porque são formas de violência fascista que estão sendo aplicadas de maneira sistemática contra certos grupos sociais, em certos territórios, em certas circunstâncias, e elas são práticas normais dentro das nossas sociedades.

São Paulo - 03/06/2026 - Vladimir Safatle é professor  do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cecília Bastos/USP

Vladimir Safatle é professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Agência Brasil: O que o conceito de fascismo significou historicamente e como pode ser caracterizado no período mais recente no Brasil?

Vladimir Safatle: A estrutura de violência do fascismo histórico já é uma derivação, ela não é uma coisa que aparece lá [na década de 1930]. Ela é uma derivação da violência colonial. Todos os dispositivos de tecnologia de violência do fascismo foram desenvolvidos inicialmente dentro de contextos coloniais. Guerra de raça, supremacismo, desaparecimento forçado, extermínio, massacres administrativos, indiferença a genocídio, estruturas de estado dual, ou seja, tudo isso estava presente dentro do colonialismo.

Mais do que isso, países que têm forte matriz colonialista, como no caso brasileiro, vão à sua maneira perpetuar essas formas de violência na relação do Estado com certas populações. Eu tendo a dizer, basicamente, que é impossível falar em democracia se você não coloca uma questão posterior que é: democracia na perspectiva de quem?

Na perspectiva de alguém que habita onde eu habito, Higienópolis [bairro nobre de São Paulo], e que está na classe em que eu estou, é possível falar em democracia no Brasil, por exemplo, porque eu tenho integridade pessoal, sei que a polícia não vai bater aqui na minha casa sem um mandado colocando uma metralhadora na minha cabeça do nada.

Mas, se você mora no Complexo do Alemão, onde é possível matar 122 pessoas e depois essas pessoas continuarem sem nome, sem história, sem dolo, sem comoção pública, sem indiciamento das pessoas responsáveis, falar de democracia nesse caso é uma obscenidade. Dessa perspectiva, [a democracia] ela simplesmente nunca existiu.

Agência Brasil: Essas seriam as feições específicas do fascismo brasileiro? Quais os aspectos e manifestações mais imediatas e perceptíveis na rotina democrática do país?

Vladimir Safatle: Tem estruturas de permanência de violência, segregação muito explícita da forma de proteção do Estado, o Estado protege certos setores e preda outros. Em países como o Brasil, isso é uma norma muito explícita, é muito fácil perceber. Mesmo em países europeus, por exemplo, que normalmente são vistos como exemplos do que seria a democracia liberal, é sempre bom lembrar que esses países foram países coloniais até o final dos anos 1960, pelo menos. Ou seja, essa lógica estava presente no território deles, uma distinção territorial entre metrópole e colônia.

Só que, posteriormente, com o acirramento das crises estruturais do capitalismo, a tendência é que eles voltem a praticar níveis de violência nesse sentido, de maneira cada vez mais sistemática, contra as populações precarizadas que agora habitam os seus próprios territórios metropolitanos. Então, toda a dinâmica própria [em relação] aos imigrantes, desde centros de detenção até deportação forçada. Então, é claro o fascismo, a violência fascista.

Eu acho que a gente tem que descrever o fascismo principalmente como uma forma de violência, ela tem gradações, isso já desde o fascismo histórico. E essas gradações vão se fortalecendo, ou seja, você vai aumentando a gradação de acordo com a dinâmica interna do processo e a lógica de crise à qual vai ter que se confrontar.

Agência Brasil: O fascismo está ligado necessariamente à extrema direita?

Vladimir Safatle: Sim. Você pode falar “mas tem violências também na esquerda e todo esse tipo de coisa”. Sim, claro. Só que eu não sou daqueles que, por exemplo, como a Hannah Arendt, trabalharia com conceito similar de violência num caso e no outro. Ela utiliza, por exemplo, o conceito de totalitarismo para criar um amálgama entre a violência fascista e a violência stalinista, por exemplo. Eu acho que são duas formas de violência que estão longe de serem realmente o espectro da luta por emancipação, independentemente do que a gente possa entender por isso, mas elas são formas diferentes de violência.

Eu tentei trabalhar isso no meu livro, a violência fascista tem uma grande diferença em relação à violência do stalinismo. A violência do stalinismo é uma violência de preservação do Estado, é uma violência clássica, é um Estado que mobiliza sua violência contra setores descontentes ou em sedição na sociedade. A violência fascista é outra coisa, é um tipo de violência suicidária, ou seja, ela desenvolve uma lógica auto-sacrificial de natureza tal que até mesmo o próprio Estado começa a entrar em colapso.

Ou seja, ela [a violência fascista] não para na preservação do Estado, ela é uma violência de transformação da sociedade em uma dinâmica de guerra permanente. Nessa dinâmica de guerra permanente, para sustentá-la, é necessário que se sustente uma espécie de mobilização permanente para a guerra, e chamados contínuos ao sacrifício de si. Eu diria que essa é uma tendência que vai se aprofundando.

Você pode falar “mas isso é só numa situação de guerra explícita”. O que a gente vê hoje, mais ou menos dessa maneira, é a forma com que os Estados que são atualmente governados pela extrema de direita têm uma lógica [de gestão] que, diante das catástrofes climáticas, das catástrofes ecológicas, das catástrofes sanitárias e das catástrofes humanitárias, é importante que se acomode a sociedade a aceitar isso como algo normal. Ou seja, como se a sociedade aceitasse, afinal de contas, um nível cada vez maior de destruição dentro do seu próprio seio.

Agência Brasil: Então, o conceito de fascismo permanece pertinente para compreender especialmente a realidade brasileira?

Vladimir Safatle: A gente tem cada vez mais crises ecológicas brutais no nosso presente e no nosso futuro. Diante delas, você tem duas opções a fazer: gerenciá-las, ou seja, tratar as causas dessas crises para que elas não voltem a ocorrer, ou simplesmente não fazer nada e tratar como se elas fossem casos normais a partir de agora. Você pode até tentar reconstruir aquilo que uma enchente destruiu, remontar aquilo que o incêndio queimou, mas, no fundo, se nenhuma das causas são modificadas, você sabe que isso vai acontecer de novo.

Eu lembraria que esse segundo paradigma, que é uma espécie de lógica da contra gestão, é o mais utilizado hoje em dia. É quase como se estivesse acomodando a sociedade a admitir que ela vai ser destruída.

Agência Brasil: A gestão da pandemia no Brasil é um exemplo de situação que foi atravessada pelo fascismo?

Vladimir Safatle: Sim, foi. Eu diria que foi aí, inclusive, que eu comecei a escrever esse livro. Quando, diante daquilo, para mim, estava muito claro que era alguma coisa de uma natureza completamente diferente. Não era nada parecido com o que a gente tinha visto antes.

Agência Brasil: A quais esferas de gestão você se refere?

Vladimir Safatle: Teve uma dinâmica de contraposição, de fato, teve esferas estaduais que agiram de maneira, entre aspas, mais tradicional, que é tentar respeitar certos protocolos de autopreservação da população. Só que a dinâmica federal desestabilizou tudo. Ela funcionava de um jeito que a gente nunca tinha visto, que era naturalizar para a sociedade a ideia de que agora ia se confrontar com o nível mais elevado de, digamos, exposição à morte violenta, isso para todo mundo. É quase uma lógica do sacrifício.

Quando você via aquela massa de pessoas indo fazer manifestações diante de hospitais para criticar a ação dos médicos e dos enfermeiros, ou seja, para se expor a um nível mais elevado de morte, como se fosse um ato de coragem, isso tem uma matriz muito clara do tipo de auto sacrifício que é próprio do fascismo, que modifica radicalmente as subjetividades naquele momento.

E você pode falar “ah, mas isso aconteceu só no Brasil”. Por isso que eu insisto: não, na verdade, o que a gente viu no Brasil é uma coisa que a gente deve chamar de lógica da contra gestão de crise.

Seja uma crise sanitária, seja uma crise ecológica, seja uma crise econômica, o que você vê é cada vez mais o Estado fazendo menos. E esse “fazer menos” implica em cada vez mais deixar a sociedade à mercê da destruição, que a gente vê de forma cada vez mais explícita. É importante ver isso a partir de uma lógica da naturalização do sacrifício, que é própria do que a gente vê no interior de situações tipicamente fascistas.

Agência Brasil: Considerando que se trata de uma ameaça interna, o que precisa ser feito por partidos, grupos ou organizações sociais para suprimir a disposição fascista das democracias liberais?

Vladimir Safatle: Primeiro, entender mais claramente o que é o fenômeno e não ter medo de nomear o fenômeno. Dar nome correto às coisas é a primeira condição para conseguir resolver os problemas.

Segundo, lembrar que essa opção fascista não é uma regressão psicológica, não é fruto de algum tipo de déficit cognitivo, déficit moral, [nem] que as pessoas estão envolvidas num ódio eterno ou são tão burras que acreditam que a Terra é plana, acreditam em fake news ou qualquer coisa parecida. Na verdade, é uma escolha racional do fascismo.

É importante entender esse cálculo racional. Acho que é um elemento mais desafiador hoje para a nossa perspectiva analítica. Na verdade, quem escolhe isso, escolhe fazendo um cálculo que é mais ou menos o seguinte: “não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu. Se for você que tiver que sair, desculpe, mas é você ou sou eu”. Tem uma dinâmica de dessensibilização social fundamental aí.

Eu não posso sentir que o seu destino diz respeito a mim também, eu não posso imaginar que o que acontecer com você e que a sua tragédia também seja uma tragédia minha. Então, a indiferença tem que ser o afeto central da sociedade. Essa é uma transformação enorme, porque implica você decompor todas as estruturas de solidariedade social que ainda restavam.

Agora, o que os partidos políticos podem fazer, o que os atores políticos podem fazer, é compreender como a gente chegou até aqui, primeira coisa. Como é que a gente chegou numa época em que a coisa mais racional é ser fascista.

Ou seja, tem um fracasso nosso, muito importante. Até agora, parece que a gente não consegue mais convencer a sociedade de que há uma outra alternativa, de que não estamos destinados a aceitar que não há mais sociedade para todo mundo. Isso não é só uma questão de discurso, é uma questão de ação, então, tem toda uma discussão sobre o tipo de ação que a gente fez nesses últimos tempos, para que a gente chegasse até esse ponto.

Brasília - Df - 03/06/2026 - Filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle. Foto: Facebook/Vladimir Safatle

Filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle. Foto: Facebook/Vladimir Safatle

Agência Brasil: Entre intelectuais e pesquisadores, há uma resistência para usar o termo fascismo para caracterizar as relações sociopolíticas do país. O que pode estar na base dessa resistência? O que explica essa resistência?

Vladimir Safatle: A gente está falando de um país, principalmente no que diz respeito à resistência de pesquisadores brasileiros, que teve o maior partido fascista fora da Europa, que é a Ação Integralista Nacional, que teve 1,2 milhão de membros nos anos 1930. O Integralismo teve uma influência fundamental no golpe, na ditadura militar. Lembrando que o integralista Augusto Rademaker era vice-presidente do [Emílio Garrastazu] Médici. A junta militar [na época] era composta por três militares, dois eram integralistas. Essa junta que vai fazer inflexão da linha dura no regime militar.

A gente teve um presidente que, em setembro de 2021, depois de tentar desestabilizar a República em 7 de setembro, com os seus apoiadores, foi obrigado a fazer uma carta à nação, e ele assina com o lema integralista “Deus, Pátria e Família”. Ou seja, a história do fascismo nacional é uma história constituinte do Brasil.

A universidade deveria começar fazendo uma profunda autocrítica sobre como é que foi capaz de não enxergar essa história por tanto tempo, até que ponto a gente foi ensinado a não vê-la.

Talvez para não perceber que nós não estávamos dentro de um processo de aprofundamento das nossas democracias, a gente estava num processo de preservação de uma estrutura de violência e de precarização das vidas que nunca mudou um centímetro, nunca mudou uma linha.

Eu diria que uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo. E cumplicidade intelectual em relação ao que há de pior na sociedade brasileira não vai ser nenhuma novidade.

  • Facebook
  • Twitter
  • Pinterest
  • LinkedIn
  • WhatsApp
Câmara aprova urgência de texto que facilita garimpo de menor porte
Lula defende Pix e diz que sistema brasileiro assusta norte-americanos
Dosimetria: Alcolumbre promulga lei que beneficia condenados pelo 8/1
STF apura emenda parlamentar para produtora de filme sobre Bolsonaro
Lula entrega aparelhos de radioterapia em São Paulo
Compartilhar
O que você acha?
Amor0
Triste0
Feliz0
Com sono0
Nervoso0
Morto0
Piscar0
artigo anterior camara-aprova-urgencia-de-texto-que-facilita-garimpo-de-menor-porte Câmara aprova urgência de texto que facilita garimpo de menor porte
Próximo artigo lula-sanciona-lei-que-garante-renovacao-automatica-da-cnh Lula sanciona lei que garante renovação automática da CNH

Últimas notícias

publicacao-propoe-alternativas-para-exploracao-de-terras-raras-no-pais
Publicação propõe alternativas para exploração de terras raras no país
Economia
5 de julho de 2026
industria-brasileira-recua-0,2%-em-maio;-primeira-queda-desde-2025
Indústria brasileira recua 0,2% em maio; primeira queda desde 2025
Economia
5 de julho de 2026
pe-de-meia-paga-quarta-parcela-aos-nascidos-em-julho-e-agosto
Pé-de-Meia paga quarta parcela aos nascidos em julho e agosto
Educação
5 de julho de 2026
matriculas-em-creches-avancam-36%-em-quase-uma-decada
Matrículas em creches avançam 36% em quase uma década
Educação
5 de julho de 2026
Enquanto isso uruaçuEnquanto isso uruaçu
Siga-nos
Enquanto isso Uruaçu © 2026 Todos direitos reservados
Bem vindo de volta!

Faça login em sua conta

Username or Email Address
Password

Perdeu sua senha?